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O anonimato é o pior pesadelo das autoridades quando falamos em blockchain?

William Mougayar, em seu livro “Blockchain para negócios: promessa, prática e aplicação da nova tecnologia da internet”, p. 55 nos diz que:

“O blockchain possibilita o anonimato do usuário por escolha, e essa é uma das características mais irritantes para reguladores e autoridades de registros financeiros, especialmente em aplicações para consumidores. É claro que eles pensam em lavagem de dinheiro, comércio ilícito e atividades terroristas, nas quais os usuários poderiam se esconder por detrás de identidades pseudoanônimas e sair do radar por muito tempo antes de serem descobertos. Obviamente, esse não é o objetivo de blockchains públicos ou aplicações descentralizadas, e apesar dos casos esporádicos e periféricos para pessoas comuns, eles são altamente relevantes para legisladores e instituições governamentais”.

Há muitas questões interessantes como pano de fundo desse tipo de afirmação que ao meu ver merecem ser trazidas à luz.

Reguladores e Autoridades: mocinhos ou vilões?

O comentário de Mougayar parece pressupor que os reguladores e as autoridades são pessoas unicamente preocupados com problemas legítimos que podem existir a partir de uma tecnologia Blockchain que permita transações financeiras anônimas.

Creio que muitos reguladores e autoridades se encaixam nesse padrão e realmente podem (e devem) se preocupar com questões de segurança em geral diante de potenciais ameaças. Mas não creio que todas as pessoas em posição de liderança no modelo atual de sociedade que temos estejam preocupados somente com esse tipo de coisa.

Em geral, legisladores/reguladores e autoridades representam os interesses das “castas” mais privilegiadas da sociedade com quem fazem negócios e negociatas o tempo todo. Nesse cenário, os piores pesadelos dessas pessoas não tem que ver com nenhum crime, mas com o potencial transformador dessa tecnologia sobre o próprio modelo do sistema financeiro e social do mundo hoje.

Se o dinheiro mudar, tudo muda. Se o dinheiro for desxcentralizado o poder central se esvazia. E tudo isso representa uma ameaça muito maior do que lavagem de dinheiro, corrupção e terrorismo, coisas que o mundo já enfrenta mesmo sem que as moedas digitais descentralizadas representem grande parcela das transações num mercado global.

Dessa forma, toda a tentativa de narrar as preocupações das autoridades em tons benéficos pode terminar unicamente representando uma visão bastante parcial e equivocada da real problemática mundial por detrás dessa tecnologia.

E quanto à privacidade?

A privacidade foi eleita a nova inimida da ordem social e econômica? Tente vislumbrar a solução. Controle absoluto de tudo que todos transacionam de forma eletrônica e em tempo real. Que tipo de implicações isso carrega?

O absoluto fim de qualquer capacidade da parte das pessoas comuns em manter sua identidade e hábitos de consumo à salvo de olhares curiosos, gananciosos e fraudulentos.

Os problemas abrangem desde problemas aparentemente inofensivos como o acesso da esposa à todo o histórico de compras do marido (e vice-versa), o que pode gerar problemas familiares desde os mais simples até os mais graves. Ou questões muito mais complexas onde tratamentos de doenças graves possam ser descobertos por qualquer um, o que pode gerar problemas sociais e psicológicos graves para pessoas com dificuldades de saúde. Os exemplos poderiam se multiplicar indefinidamente.

O anonimato tem seus lados positivos e negativos, mas ao que parece a tendência a preservá-lo conduz a maior bem do que a tendência a eliminá-lo. O verdadeiro inferno seria um governo absolutamente corrupto e obscuro de posse dos dados de todas as pessoas de forma absolutamente transparente, de maneira a ser capaz de vender informações e criar problemas para vender soluções. O verdadeiro ápice dessa tecnologia, porém, seria ver contas públicas, por exemplo, absolutamente transparentes, envolvendo todos os serviços públicos e todas as pessoas envolvidas nesses serviços, e as contas privadas das pessoas fossem absolutamente respeitadas em função do anonimato legítimo ao qual elas têm direito.

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